Alimentação na gravidez: o que comer, o que evitar e os cuidados com a comida
O prato da gestante segundo o Ministério da Saúde, café e chás, alimentos crus, vitaminas, enjoo e desejos, e quando procurar atendimento.
Mal sai o positivo e os palpites começam: "agora tem que comer por dois", "não pode comer isso", "come aquilo que faz bem para o bebê". Cada pessoa diz uma coisa, e é fácil ficar com medo de errar em cada refeição.
A boa notícia é que comer bem na gravidez é mais simples do que parece. Na maior parte do tempo, é a comida de verdade do dia a dia, o bom e velho arroz com feijão, com alguns cuidados a mais. Este guia segue as orientações do Ministério da Saúde para gestantes. Quem tem diabetes, pressão alta, outra condição de saúde ou uma dieta especial deve ter um plano feito com a própria equipe.
Comer por dois? Não é bem assim
O bebê precisa de nutrientes, não de porções dobradas. A necessidade de energia aumenta pouco, e mais a partir do segundo trimestre. O que muda de verdade é a qualidade do que você come: o seu corpo precisa de mais ferro, ácido fólico, cálcio e vitaminas, e eles vêm de uma alimentação variada.
O ganho de peso também é individual. Ele depende do seu peso antes de engravidar, e a equipe do pré-natal acompanha isso a cada consulta, no gráfico da sua Caderneta da Gestante. Não compare a sua barriga com a de ninguém, nem faça dieta por conta própria durante a gestação.
O prato da gestante
O Ministério da Saúde recomenda que a base da alimentação sejam alimentos in natura ou minimamente processados: feijão, arroz, legumes, verduras, frutas, ovos, carnes, leite e água. São os alimentos que vêm da natureza, ou que passaram por pouco processamento.
Feijão todo dia: de preferência no almoço e no jantar. Ele é fonte de ferro, fibras e proteínas. Lentilha, grão-de-bico e ervilha também valem.
Legumes e verduras todo dia: quanto mais cores no prato, mais variedade de vitaminas.
Frutas todo dia: prefira a fruta inteira ao suco. Ela sacia mais e tem mais fibras.
Peixe na rotina: sardinha e salmão são ótimas fontes de ômega-3, importante para o cérebro do bebê. Sempre bem cozidos.
Água ao longo do dia: ajuda a circulação, o intestino e a prevenir infecção urinária. Se a água pura enjoar, tente gelada ou com rodelas de limão ou folhas de hortelã.
Refeições com calma: longe da TV e do celular, quando der. Comer com atenção ajuda a perceber a fome e a saciedade.
Dica para o ferro: coma uma fruta rica em vitamina C, como laranja, acerola, caju ou limão, na mesma refeição do feijão. Isso ajuda o corpo a aproveitar melhor o ferro. É ainda mais importante para quem não come carne.
O que diminuir
- Ultraprocessados: salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo, biscoitos recheados, embutidos (presunto, salsicha, linguiça) e congelados prontos. Eles têm muito sal, açúcar, gordura e aditivos;
- Bebidas adoçadas: refrigerante, suco de caixinha, suco em pó e refrescos. Suco de caixinha não é alternativa saudável ao refrigerante;
- Sal em excesso: prefira temperos naturais, como alho, cebola, cheiro-verde e louro, em vez de tempero pronto em cubo ou em pó;
- Adoçantes: o protocolo do Ministério da Saúde para gestantes não recomenda o uso na gravidez. Se você usa por orientação médica, por exemplo por causa de diabetes, converse com a sua equipe antes de mudar qualquer coisa.
Diminuir não quer dizer nunca mais. Um docinho de vez em quando não faz mal a ninguém. O que pesa é o que você come na maior parte dos dias.
Café, chás e bebidas
Café: o protocolo do Ministério da Saúde orienta não passar de cerca de uma xícara de café por dia. Lembre que a cafeína também está no chá preto, no chá verde, no mate, no chimarrão, nos refrigerantes de cola e nos energéticos. Em excesso, ela está ligada a mais risco de aborto, parto prematuro e bebê com baixo peso.
Chás: nem todo chá é inofensivo na gravidez, e algumas ervas podem fazer mal. Antes de tomar qualquer chá com frequência, ou se alguém te recomendar um "chá milagroso", pergunte na consulta.
Álcool: não existe quantidade segura de bebida alcoólica na gravidez. Isso vale para cerveja, vinho e destilados, em qualquer fase. Se você bebeu antes de saber que estava grávida, não se culpe: pare agora e conte na consulta.
Cuidados com a comida: o que evitar
Alguns alimentos podem transmitir infecções que preocupam mais na gravidez, como a toxoplasmose e a listeria. Os cuidados são simples:
Evite
- Carne crua ou malpassada, incluindo carpaccio e quibe cru
- Peixe e frutos do mar crus, como sushi, sashimi e ceviche
- Ovo cru ou mole, e preparações com ovo cru, como maionese caseira e alguns mousses
- Leite cru e queijos feitos com leite não pasteurizado
- Frios e embutidos sem aquecer até ficarem bem quentes
- Peixes grandes predadores, como cação, que podem acumular mais mercúrio
Prefira
- Carnes bem passadas, sem partes rosadas
- Peixes bem cozidos, assados ou grelhados
- Ovos com a gema firme
- Leite e queijos pasteurizados (confira no rótulo)
- Comida feita na hora e bem quente
- Sardinha, salmão e outros peixes menores
Frutas, legumes e verduras crus podem, sim, ser consumidos, desde que bem lavados. Não precisa cortar a salada por medo de toxoplasmose. O Ministério da Saúde orienta:
- Lave em água corrente, folha por folha.
- Deixe de molho por 15 minutos em 1 litro de água com 1 colher de sopa de água sanitária própria para alimentos (confira no rótulo) ou de hipoclorito de sódio.
- Enxágue de novo em água corrente. Pronto para comer.
Lave também as mãos, as tábuas e as facas depois de mexer com carne crua, e mantenha a carne crua longe dos alimentos prontos. Se você tem gato, peça para outra pessoa limpar a caixa de areia, ou use luvas e lave bem as mãos depois.
Vitaminas e suplementos
A alimentação é a base, mas alguns nutrientes costumam ser receitados à parte no pré-natal:
- Ácido fólico: ajuda na formação do sistema nervoso do bebê. O ideal é começar antes de engravidar e continuar pelo menos no primeiro trimestre. Se a gravidez não foi planejada, comece assim que souber;
- Ferro: costuma ser indicado durante a gestação, para prevenir anemia, que é comum nessa fase;
- Outros: dependendo dos seus exames e da sua alimentação, a equipe pode indicar mais algum.
A dose e por quanto tempo tomar quem define é a sua equipe. Não tome vitaminas por conta própria, nem "para garantir": algumas fazem mal em excesso. No SUS, o ácido fólico e o sulfato ferroso são distribuídos de graça nas Unidades Básicas de Saúde.
Você é vegetariana ou vegana? Dá para ter uma gestação saudável assim, mas conte na primeira consulta. A vitamina B12, por exemplo, quase não aparece em alimentos de origem vegetal e costuma precisar de atenção.
Enjoo, azia e intestino preso
Os desconfortos da gravidez mexem com a vontade de comer. Algumas mudanças simples ajudam:
- Coma pouco e mais vezes: três refeições e três lanches pequenos ao longo do dia;
- Beba líquidos entre as refeições, e não junto com elas;
- Evite deitar logo depois de comer, principalmente se tiver azia;
- Tenha lanches simples por perto, como frutas, castanhas ou pão: ajudam a evitar fraqueza e tontura;
- Para o intestino: feijão, frutas, verduras e bastante água ao longo do dia.
Se o enjoo está difícil, temos um guia só sobre ele: enjoo na gravidez: o que alivia e quando procurar ajuda.
Desejos e aversões
Vontade súbita de comer manga com sal às 23h, ou nojo do cheiro do café que você amava: os dois são comuns. Pode atender aos desejos com bom senso, desde que eles não tomem o lugar das refeições.
Uma exceção importante: se tiver vontade de comer coisas que não são alimento, como terra, gelo em grande quantidade, sabão ou giz, conte na consulta. Às vezes isso está ligado à falta de ferro.
Quando procurar atendimento
Procure a sua equipe ou um pronto-atendimento se tiver:
- Vômitos que não deixam você se alimentar nem beber água, ou sinais de desidratação (boca seca, pouco xixi, xixi muito escuro);
- Febre, diarreia, vômitos ou dor no corpo depois de comer algo suspeito;
- Inchaço repentino no rosto e nas mãos, principalmente com dor de cabeça forte ou visão embaçada;
- Perda de peso sem explicação, ou ganho de peso muito rápido de uma semana para outra;
- Muita sede e muita vontade de fazer xixi, fora do comum.
Você não precisa de uma alimentação perfeita para ter uma gravidez saudável. Faça o melhor possível, um prato de cada vez, e leve as suas dúvidas para o pré-natal. Para saber o que mais acontece em cada fase, veja o guia da Gestação e a gravidez semana a semana.
Fontes
Este artigo foi escrito com base em orientações de:
- Ministério da Saúde — Protocolo de uso do Guia Alimentar na orientação alimentar de gestantes (2021)
- Ministério da Saúde — Guia Alimentar para a População Brasileira (2014)
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Recomendações sobre gestação, parto e amamentação
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação do seu médico, obstetra, pediatra ou outro profissional de saúde. Na dúvida, procure a sua equipe.